Minha mãe disse que eu tinha que provar o amargo da vida
Se eu quisesse ser alguém
Deixar de ser invisível
Se eu quisesse respeito
Se eu quisesse ser bonita
De todos os jeitos "tá condenada",
Ela dizia.
Que eu queria ser amor
Que eu queria ser luz
Que eu queria ser delicadeza
Isso não existe pra pobre
Não existe pra preta
Não não e não,
o que a gente mais recebe
ao invés de compreensão,
raiva e agonia,
peitar ou fugir
E quem enxerga a preta aqui?
Nada bom no amor
A gente sempre é mal compreendida
Nada bom na vida
Viver é sobreviver
A gente sempre brava
A gente sempre de cara feia
Nada bom no emprego
A gente continua vivendo
Da mesma maneira
Que a mãe criou
Às vezes, eu lúcida, penso
Que minha mãe não colocou pedra no caminho
Ela já conhecia
Nasceu preta como eu
E já sabe o amargo que nos amarga a vida.
