Antes, achava uma dádiva poder sorrir sem fim
Sentir os maldizeres da vida
Apanhar dos doentios prazeres
Me esquivar de armadilhas
Me ofender em outras
Mas digna de mim, após abusos, haviam risos
Fortes, altos, alegres
Vívidos, renascidos,
Sofridos e encarnados
Risos destemidos,
Outorgados
A tristeza é bem mais fina
Talvez realista
E finda logo essas escolhas desgraçadas
Que por mais aprazíveis que fossem
Me quebravam e angustiavam
5 de abril de 2017
“No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto, comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu.”
— Machado de Assis
4 de abril de 2017
Começou no auge do meu entendimento do mundo. Eu tinha 7 anos. Você está se perguntando qual entendimento uma criança deve ter sobre as situações que a cercam. Talvez eu começara a entender o mundo no qual convivia.
Homens brancos, altos, cabelos grisalhos, lábios finos e sorrisos sacanas. Imagem tentadora para época que se denominava anos 90. Espelhos e reflexos vendidos para milhares de filmes. Dentre eles os mais românticos (e entre nós, as melhores histórias foram produzidas naquela época, histórias que hoje são totalmente clichês normais e vazias). Voltando ao contexto, jurei pra mim mesma que não usaria a palavra "clichê", para piorar em seu plural. Convenhamos, qual palavra descreveria momento de forma tão comum e correta? Não precisamos fugir para uma linguagem tão culta para falarmos sobre como nos relacionamos, e que talvez o meu entender de mundo, com 7 anos (até com pouco menos de idade) possa estar proporcionando esse grande buraco emocional e grotesco, que neste momento o quero afastar da minha vida.
Filmes românticos? Ah, sim... Aquele momento em que pequeninas pessoas em sua cabeça, inspirados por cenas falsas e montadas fabricam artesanalmente realidades que só poderão ser vividas ali. E quando Einstein disse que a imaginação é mais importante que a inteligência, aí meu bem, pode ter certeza de que você se encontrará numa grande pegadinha, armada por suas construções e manobrada por um joão kleber fajuto que no início parecia te garantir um grande momento sem igual de felicidade e satisfação.
As coisas não são como parecem. Não estou infeliz, acredite! Ah...é ... talvez esteja um pouco, mas o que me trouxe aqui foi algo muito alegre. Parecia ser.
Um dia eu resolvi perguntar a um homem se ele havia comparecido ao fórum. Ele me respondeu que não. Dois meses depois eu estava sem escrúpulos. Eu estava inefavelmente amando. De uma forma tão irreversível que pude me esquecer de todos os meus relacionamentos e feridas que não eram extintas. Na busca sedenta entre me encontrar, crescer, ser e amar, agora, eu não acho que exista algo mais verdadeiro do que eu.
A coragem proporciona medos absurdos nas pessoas que a tem em grandes escalas. Ela pode nos remeter a grandes desafios e inoportunos desastres. Mas jamais deixará que abandonemos o que possa existir de melhor em nós ou no caminho que trilhamos. Se nada estiver fazendo sentido, por favor, não desista. Mais que alimentar meu ego, essas palavras, talvez possam lhe ajudar.
Eu desisto facilmente dos meus planos, porque na verdade neles não habita nada do que eu acredite. Sempre foi mais instigante entender as pessoas e seus complexos do que realmente olhar para meus receios e dar-lhes um cuidado necessário. Quem eu sou e o que devo fazer agora? Perguntas constantes, todos os momentos do dia. Eu tenho 24 horas, mas eu faço o favor de nunca chegar a alguma conclusão, pois no meio da ponte para meu conhecimento interior eu disfarço minhas agonias de felicidade e penso em como não posso ter um amor completo? Eu tenho 21 anos. E em 21 anos, não houve um minuto em que eu pudesse me interessar pela pessoa que eu sou. Pela casca que habita meu corpo e ela só se tornava interessante quando alguém persistia em querer olhar.
Quando olham, vão embora. Eu sempre pensei que os entendia. Mas eu não entendo. Me culpo por quem eu sou e sei que assistir filmes românticos reprisados 5 vezes seguidas em um dia me colocou diante de uma grande cilada (corre, Bino!).
Fazer o que? Eu queria crescer e ser beijada. Mais que isso, vangloriada, ser alguém interessante, ter beleza, ter serenidade, ser refúgio e milhares de coisas idiotas que jamais precisamos cobrar de nossas almas, porque, assim como todo mundo, eu sou imensamente, grandemente, inevitavelmente humana. E o melhor de tudo: eu sou extremamente corajosa. Tudo parece estar inacabado, mas é apenas uma ilusão, porque a sua vida ainda não acabou.
Continue, Natalia.
19 de setembro de 2016
Eu escrevo muito bem quando eu estou triste. É bem perceptível e contínuas as decisões de palavras usadas quando eu entro na famigerada e agora modernizada sensação de tristeza, a bad.
20 anos, 6 ou 7 escrevendo coisas, desde os 7 tentando imaginar uma realidade visivelmente longe. De repente, o tempo voa e é isso que eu mais ouço e o que mais faço escutar. Não existe outra maneira de dizer que crescemos, que envelhecemos, que nos despedimos de coisas essencialmente boas, puras, alegres para nos tornarmos adultos ríspidos, buscando sempre algum tipo de retorno para nosso esforço e solidão, mas nunca tentar mudar a mesma percepção fútil para o passar de um tempo, para o passar de uma vida, porque, realmente, o tempo voa.
Nunca nos tornamos amargos, nunca nos tornamos secos, nunca nos tornamos mal amados, nunca nos tornamos pessoas que usam as outras em prol dos prazeres e convicções. Apenas respeitamos o tempo que voa e o fato de que nos tornamos adultos. E eu aqui preocupada com as ocupações e responsabilidades, pensando nos retornos que a vida pode oferecer, afinal, a gente pode tentar acreditar que existem coisas e talvez presenças maiores. Poderia ter. é um jeito de ter esperança.
Grande causa das minhas brigas internas se classifica como operações matemáticas, bem sistematizadas e ao mesmo tempo, sem muito valor. Pois é. Eu só queria que parasse e projetasse uma sensação distinta. Eu escrevo pra mim e escrevo para os outros, ou escrevo pra coisas, ou seria outro propósito? Eu não sei.
17 de setembro de 2016
Minha mãe disse que eu tinha que provar o amargo da vida
Se eu quisesse ser alguém
Deixar de ser invisível
Se eu quisesse respeito
Se eu quisesse ser bonita
De todos os jeitos "tá condenada",
Ela dizia.
Que eu queria ser amor
Que eu queria ser luz
Que eu queria ser delicadeza
Isso não existe pra pobre
Não existe pra preta
Não não e não,
o que a gente mais recebe
ao invés de compreensão,
raiva e agonia,
peitar ou fugir
E quem enxerga a preta aqui?
Nada bom no amor
A gente sempre é mal compreendida
Nada bom na vida
Viver é sobreviver
A gente sempre brava
A gente sempre de cara feia
Nada bom no emprego
A gente continua vivendo
Da mesma maneira
Que a mãe criou
Às vezes, eu lúcida, penso
Que minha mãe não colocou pedra no caminho
Ela já conhecia
Nasceu preta como eu
E já sabe o amargo que nos amarga a vida.
Se eu quisesse ser alguém
Deixar de ser invisível
Se eu quisesse respeito
Se eu quisesse ser bonita
De todos os jeitos "tá condenada",
Ela dizia.
Que eu queria ser amor
Que eu queria ser luz
Que eu queria ser delicadeza
Isso não existe pra pobre
Não existe pra preta
Não não e não,
o que a gente mais recebe
ao invés de compreensão,
raiva e agonia,
peitar ou fugir
E quem enxerga a preta aqui?
Nada bom no amor
A gente sempre é mal compreendida
Nada bom na vida
Viver é sobreviver
A gente sempre brava
A gente sempre de cara feia
Nada bom no emprego
A gente continua vivendo
Da mesma maneira
Que a mãe criou
Às vezes, eu lúcida, penso
Que minha mãe não colocou pedra no caminho
Ela já conhecia
Nasceu preta como eu
E já sabe o amargo que nos amarga a vida.
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